Olá. Vou discorrer um pouco sobre o que me chama atenção no Caminho ensinado por Sidarta Gautama – O Buda.
Aprendemos com a lição do Buda, e é fácil observar por experiência própria, que a maior parte das nossas desventuras são causadas por reações a atos por nós mesmos iniciados. Não trato aqui de questões místicas, não! Não falo em castigo. Falo da observação da prática do cotidiano. Aliás, ação e reação encontra-se na lei da Física. Falo de transtornos causados por modo de viver incorreto, compreensões equivocadas, comportamentos e falas indevidas, entre outros. Vemos, por exemplo, na Tv que a gang que espancou um rapaz, os pais que jogaram uma criança do prédio, os militares que entregaram jovens à facção inimiga estão amargando infortúnios, independente de qualquer julgamento. Estão provando da infelicidade, pois os atos têm um preço.
O caminho do meio, trilhado e ensinado por Sidarta Gautama, nos induz observarmos com atenção a nossa forma de nos conduzirmos na vida. Para tanto deixou ele, como herança, o Nobre Caminho Óctuplo, que é um caminho oitavado, a nos indicar formas comportamentais a serem observadas, com fim de evitarmos os infortúnios da vida. Exorta-nos a buscarmos uma correta compreensão, um correto pensamento, uma fala correta, correta ação, correto modo de vida, correto esforço, correta mente atenta e correta concentração. Observações estas que nos podem nos poupar das amargas conseqüências de atos realizados de forma inconseqüentes. Deriva das Quatro nobres verdades, que reconhece a existência do sofrimento, mas vê meios de vencê-lo.
No romance Velho Caminhos Nuvens Brancas, seguindo as pegadas do Buda (Ed. Bodigaya, 2007, pg. 122), do Ven. Thich Nhat Hanh, temos o seguinte diálogo atribuído ao Buda, que bem nos explica a função do caminho por ele ensinado:
“Irmãos, por que chamo de Caminho Correto? Eu o chamo de Caminho Correto, porque ele não evita ou nega o sofrimento, mas aponta para a direta confrontação com o sofrimento com meio de superá-lo. O Nobre Caminho Óctuplo é o caminho do viver consciente. A Mente Atenta é a sua fundação. Ao praticar a mente atenta, vocês podem desenvolver a concentração que os habilitará a alcançar a Compreensão. Graças a correta concentração, vocês realizarão consciência, pensamentos, fala, ação, modo de vida e esforço corretos. A compreensão assim desenvolvida pode liberá-los de toda a cadeia de sofrimento e dar nascimento à paz e alegria verdadeiras”.
Então de se observar que não buscou o Buda ensinar-nos a obter o paraíso post mortem, mas nos ensinou a sermos felizes em vida, bem no momento presente, evitando as nefastas conseqüências de um modo errado de agir. Aliás uma das principais tônicas do seu legado é a necessidade de se Viver o momento presente, segundo por segundo.
Não há ser falar ainda em sermos castigados pelos céus ao descumprir estes preceitos. Sidarta não era um deus, nem nunca se julgou como tal. Sidarta nos ensinou um caminho a que sugeriu ser seguido. Quis ele compartilhar apenas do prazer que sentiu com seu êxito obtido na liberação do sofrimento. O que foi bom para ele, quero quis compartilhar com os outros seres. Não quiz ele “converter” ninguém. Incentivava inclusive que permanecessem no seu credo, se isto te fazia obter resultados. Não fundou religião nem dogmas, mas ao contrário, combatia as obediências dogmáticas às tradições. Não queria ser considerado salvador, nem detentor do único caminho, ou mesmo confundido com o caminho sugerido. Ensinou um caminho que possibilita a paz no aqui e agora.
Quanto a sua condição de professor e não de salvador, bastante esclarecedor outra passagem do livro supra referido em que Sidarta chama a atenção dos seus monges acerca da correta observação dos seus ensinamentos:
“Bhikkhus, o ensinamento é um mero veículo para descrever a verdade. Não confundam-o com a verdade em si mesma. Um dedo que aponta para a lua não é a lua. Um dedo é necessário para saber onde olhar para encontrar a lua, porém, se vocês olharem para o dedo pensando tratar-se da lua, confundi-os, jamais conhecerão a lua real.
“ O ensinamento é como uma canoa que pode levar vocês para a outra margem. A canoa é necessária, porém ela não é a outra margem. Uma pessoa inteligente não carregaria a canoa sobre a cabeça após tê-la utilizado para atravessar para o outro lado. Bhikkhus, meu ensinamento é a canoa que pode ajudá-los a atravessarem para a outra margem, aquela além do nascimento e da morte, mas não a carreguem consigo como se fosse sua propriedade. Não se apeguem ao ensinamento. Vocês devem ser capazes de se desvencilharem dele. (pg. 304)
Portanto, magnífico o desapego de Gautama à condição de salvador ou detentor do caminho e da verdade.
De bom tom esclarecer, por fim, que Buda significa “o desperto”; e esta condição a todos pode ser dada na sua busca individual, desde que se obtenha êxito na prática. Todos podemos nos tornar budas. Mas acrescente-se ainda que não se há apego, inclusive, à obtenção da iluminação ao seguir o Nobre Caminho do Meio. Deve-se desapega a tudo, inclusive à liberação. Deve-se caminhar por caminhar. O seu dia-a-dia é que te fará feliz, tudo de resto é “lucro” e maravilhosa conseqüência, que poderá ocorrer ou não. Mas se caminhar dá tranqüilidade, o próprio caminho torna-se fim.
Pretendo, no decorrer dos dias, postar sobre cada um dos caminhos, para que eu possa firmar consciência sobre os mesmos, e compartilhar com quem possa se interessar nesta empreitada.